Egipto: mudanças dramáticas no panorama político

Escribió: Evan Hill en esquerda .org

O Egipto está às vésperas de mudanças dramáticas. Pela primeira vez em 30 anos, o país está próximo de ter afinal novo presidente, seja através das eleições de 2011 – evento sem precedentes na história do Egipto – seja pela morte do actual presidente Hosni Mubarak, 82 anos – acontecimento que pode levar à fase de agitação civil de consequências mais significativas no Oriente Médio desde a Revolução Iraniana de 1979.

 

Há notícias de que o governo egípcio tem um plano pronto para fechar o país no caso de morte de Mubarak, no qual se definem até os "versos corânicos de luto" a serem lidos pela televisão estatal. As forças de segurança (em trajes civis pretos), com a sua larga experiência no uso de cassetetes para controlar qualquer tipo de oposição, serão mobilizadas em massa.

 

Facto é que ninguém pode prever o que acontecerá se, apesar de os egípcios terem reputação de politicamente letárgicos, a oposição conseguir mobilizar dezenas de milhares de seguidores, em protesto, nas ruas do Cairo, contra qualquer tentativa de o actual governo “coroar” o filho de Mubarak, Gamal.

 

A chave para qualquer tentativa de impedir essa sucessão “monárquica” no Egipto que se apresenta ao mundo como país democrático está nas mãos da "Fraternidade Muçulmana"[i], o movimento político islâmico mais importante do mundo e, de longe, a mais bem organizada oposição ao Partido Nacional Democrático [ing. National Democratic Party (NDP)] de Mubarak. Não há mudança que aconteça no Egipto, para melhor ou pior, sem os Irmãos da Fraternidade Muçulmana.

 

Quando o ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atómica e Prémio Nobel, Mohamed El-Baradei – principal esperança eleitoral da esquerda secular egípcia – retornou ao Egipto esse ano, e lançou a petição popular para que o governo suspendesse os mais dispendiosos programas e leis de segurança interna e promovesse reforma das práticas eleitorais viciosas, a sua Associação Nacional pela Mudança [ing. National Association for Change] reuniu 106.661 assinaturas, no início de setembro. Imediatamente, a Fraternidade Muçulmana veio a público com mais de 650.000 assinaturas.

 

A Fraternidade tem 88 deputados no Parlamento; todos os demais representantes de partidos que fazem oposição a Mubarak, somados, são 34.

 

Grupos de protesto como o Movimento Egípcio pela Mudança [ing. Egypcian Movement for Change], ou Kifaya – o preferido dos média ocidentais nas eleições de 2005 – depende absolutamente da Fraternidade para pôr nas ruas milhares de manifestantes.

 

Agora, ao se aproximarem as eleições parlamentares de 29/11, a própria Fraternidade está em processo de mudanças.

 

Sob intensa repressão do Estado e ainda tecnicamente proscrito, o grupo encerra um primeiro mandato legislativo histórico de cinco anos, ao longo dos quais operou como o maior bloco da eterna minoria da curta história político-partidária no Egipto, e a voz mais clara da oposição aos 30 anos de ditadura de Mubarak.

 

Mas os Irmãos, agora, separaram-se dos aliados que pregam boicote às eleições, boicote que, para muitos, seria o meio mais efectivo de criticar o processo eleitoral pseudodemocrático do Egipto. Isso, apesar de a própria Fraternidade estimar que perderá metade das cadeiras parlamentares que tem hoje.

 

Vários nomes da Fraternidade já declararam publicamente que a participação nas eleições é um erro; outros dizem que não se pode descartar nenhuma possibilidade. As posições divergentes manifestam a disputa interna que se trava e sugerem a actividade mais intensa de novos e criativos analistas estratégicos recentemente integrados ao movimento que já comemora 82 anos de existência.

 

Outros ainda vêem importante vantagem prática em manter presença parlamentar, mesmo que reduzida. E as lideranças insistem em que, façam o que fizerem, sempre será expressão de consenso amplamente construído, sem nada de oportunismo político.

 

Facto é que, enquanto a Fraternidade está a ser inexoravelmente empurrada para o mundo pós-Mubarak, no qual é protagonista, ninguém parece ver com clareza o que acontecerá no futuro próximo.

 

A Fraternidade, ao longo de cinco anos

 

Essam al-Arian, membro do comando da Fraternidade e porta-voz não-oficial, é um homem muito procurado. Em determinada noite, no Cairo, ele atendia inúmeros jornalistas no seu telemóvel telemóvel, ao mesmo tempo que falava com redes egípcias de televisão, todos ávidos para conhecer a opinião do grupo sobre a disputa eleitoral.

 

Apesar de muitos preverem que a Fraternidade obterá apenas 20-30 assentos no Parlamento, e que será superada pelo grupo Wafd – da esquerda liberal, mas aliado de Mubarak – Arian disse que a Fraternidade está preparada para continuar a avançar.

 

"Todos os analistas já perceberam que vamos prosseguir na linha já traçada, de procurar maior participação política" – disse ele à rede Al Jazeera. "Há quem nos queira fora do Parlamento (...), mas resistiremos a qualquer tentativa de nos excluir do cenário político."

 

A Fraternidade, disse Arian, está satisfeita com o próprio desempenho parlamentar nos últimos cinco anos, apesar do efeito de sufocação gerado pela maioria do bloco governista.

 

Em 2005, com o governo Bush a pressionar Mubarak para que fizesse eleições transparentes, a Fraternidade conseguiu eleger quase 20% dos 444 deputados com direito a voto (10 deputados são nomeados pessoalmente por Mubarak).

 

Os 88 deputados eleitos pela Fraternidade concorreram oficialmente como candidatos independentes, porque os partidos de fundamento islâmico são oficialmente proibidos no Egipto, mas todos sabiam exactamente quem era quem. Os cartazes de campanha eleitoral dos candidatos da Fraternidade Muçulmana traziam sempre o slogan do grupo: "O Islão é a solução".

 

Apesar da propaganda, a Fraternidade sempre trabalhou, no Parlamento, na direcção de reformas políticas amplas.

 

Num artigo de 2006, Samer Shehata e Joshua Stacher examinaram a nova vida política da Fraternidade e observaram vários traços que definiram como progressistas: mobilizar os políticos para que votassem contra a revalidação da legislação de emergência, vigente desde o assassinato de Anwar al-Sadat, e a favor da divulgação dos nomes dos que votassem a favor; protestar e exigir o voto de desconfiança contra Mahmoud Abu al-Layl, ministro da Justiça que muitos consideram responsável pelas fraudes nas eleições de 2005; e divulgar, com críticas, a reacção lenta demais, do governo egípcio, ao surto de contaminação pelo vírus H5N1, da "febre aviária".

 

Como se poderia prever, contudo, os esforços da Fraternidade, no sentido de mudar ou anular a legislação existente, e de propor novas leis, foi derrotado.

 

"Claro que carecemos de liberdade e de democracia, e os média também estão amordaçados" – disse Arian. "O regime está cada dia mais envelhecido, mais rígido, cada dia mais ditatorial. Tudo mudou para pior, sem qualquer avanço progressista."

 

Ainda em cena

 

Depois das eleições, o regime entrou em processo acelerado de deterioração. Segundo a Fraternidade Muçulmana, cerca de 600 de seus membros foram presos, desde o anúncio, em outubro passado, de que o grupo participaria das eleições de 2010, mesmo que com possibilidade de obter no máximo 30% dos lugares com direito a voto.

 

O governo também tem atacado as finanças da Fraternidade Muçulmana: em 2007, Khairat al-Shater e Hassan Malik, considerados líderes da organização das finanças do movimento, foram processados e condenados por lavagem de dinheiro e terrorismo, em tribunal militar que julgou outros 25 Irmãos.

 

Segundo o Carnegie Endowment for International Peace, a Fraternidade apresentará apenas 107 candidatos às próximas eleições, apesar de o número de cadeiras ter subido para 508, com as novas 64 cadeiras reservadas para mulheres. A Fraternidade apresentou 135 candidatos – menos que os 160 que indicaram em 2005 – mas 28 foram considerados não elegíveis pela comissão eleitoral governamental.

 

Observadores externos especulam que o resultado de uma eleição interna para o Gabinete da Fraternidade no Egito, no ano passado, teria marcado uma deriva interna do poder. "Moderados", como Arian – que prega a via eleitoral como alternativa mais produtiva para a oposição a Mubarak –, estariam a perder espaço para líderes "Conservadores", entre os quais o actual líder Mohammed Badie, que defende que a Fraternidade volte às suas áreas tradicionais de trabalho político, nas quais tem mais experiência acumulada: a assistência social aos mais pobres e o proselitismo.

 

Na eleição, em dezembro, dos 16 membros do comité executivo da Fraternidade, chamado "Comité de Orientação" [ing. Guide's Office], foram derrotados nomes conhecidos na Fraternidade como reformistas, como Abdelmonem Abulfotouh e Mohammed Habib; mas Arian conservou o posto. Em janeiro seguinte, Badie foi eleito "Principal Orientador" – o cargo mais alto da Fraternidade.

 

Marc Lynch, professor-associado da George Washington University e observador do Egipto, escreveu no website Foreign Policy depois da eleição interna da Fraternidade, que "parece haver sinais de menor engajamento eleitoral e, talvez, de graves cisões internas".

 

"A tendência a reduzir o engajamento no processo democrático parece aumentar, (...) na medida em que a repressão e a manipulação de todo o processo pelo governo fechou o caminho para os esforços de democratização empreendidos pela Fraternidade", escreveu Lynch.

 

Para Arian, essa leitura não considera o essencial. A Fraternidade não desistiu de usar a arena política para promover suas propostas islâmicas para tirar o Egipto do pântano em que está, disse ele.

 

"O nosso dever agora é construir a ponte entre os problemas sociais e políticos, de um lado; e, de outro, a reforma política indispensável", disse. "Explicar essas questões ao povo, criar vias explicativas no pensamento de todos, em que se unam as questões da pobreza e do desemprego, a crise constitucional e a situação política."

 

Divisão nas fileiras

 

Mas para Abdelrahman Ayyash, 21 anos, blogueiro da Fraternidade, decidir participar das eleições esse ano foi um erro que criou um cisma entre a Fraternidade e líderes reformistas como El-Baradei e Ayman Nour, ex-candidato presidencial do partido Ghad, secular, que foi preso e torturado durante as eleições de 2005.

 

Ayyash, aluno de Engenharia de Computação, diz que vê um papel a ser desempenhado pelas "esquerdas liberais islâmicas" na reforma das sociedades árabes. Para ele, a nova liderança conservadora da Fraternidade erra ao tentar "construir uma ponte" que a ligue ao regime; entende que as vozes reformistas estão a ser excluídas da Fraternidade.

 

"Na minha opinião, a Fraternidade Muçulmana está sem ponto de vista estratégico" – disse.

 

Embora Badie afirme que a pesquisa feita no parlamento interno da Fraternidade (Conselho Shura) apontou 98% de aprovação à participação nas eleições, Ayyash lembra que Hamid Ghazali, professor da Universidade do Cairo e ex-conselheiro de Mohammed Akef, ex-Principal Orientador da Fraternidade, disse que a aprovação não superou 52% dentro do Conselho de Orientação.

 

"É possível que a organização extraia algum benefício da participação nas eleições, mas o que me preocupa é o que perderemos nos demais partidos, ou em outros grupos egípcios, políticos ou militantes. Nesses campos, perderemos muito", diz Ayyash. "Teríamos mais a ganhar se boicotássemos as eleições", do que o que a Fraternidade pode conseguir no Parlamento.

 

"A oposição perdeu uma oportunidade"

 

A decisão da Fraternidade, de participar nas eleições, pode ser tentativa, apenas, de garantir a sobrevivência imediata, diz Michele Dunne, pesquisadora-associada do Carnegie Endowment e ex-analista do governo dos EUA, para o Oriente Médio.

 

"Como organização proscrita, a Fraternidade vive sob constante ameaça (...). Acho que eles avaliam que, com deputados eleitos no Parlamento, ganhariam algum tipo de imunidade. Para quem tem plataforma política de crítica sistemática a tudo quanto se diga contra a Fraternidade, e está sempre nas manchetes dos jornais, alguma imunidade pode ser muito valiosa" – diz Dunne.

 

No início desse ano, um bloco de partidos seculares minoritários, entre os quais o Wafd, o socialista Tagammu, a esquerda liberal da Frente Democrática, e os nacionalistas nasseristas formalizaram uma lista de exigências que apresentaram ao governo de Mubarak. Exigiram algumas reformas eleitorais – "coisa simples", diz Dunne – e ameaçaram boicotar as eleições, se suas exigências não fossem atendidas.

 

"Nada obtiveram. 100% das exigências foram rejeitadas. Mas só a Frente Democrática e o partido Ghad, de Nour, cumpriram a ameaça de boicotar as eleições".

 

Facto é que a Frente Democrática é partido novo, sem deputados no Parlamento; e os demais grupos de oposição, como a Associação Nacional para a Mudança, de Baradei, e o Movimento 6 de Abril, não são partidos constituídos e nada têm a perder se boicotarem eleições – disse Dunne.

 

Shadi Hamid, director de pesquisas da Brookings Institution que trabalha no Qatar, e estudioso, há muito tempo, da Fraternidade Muçulmana, diz que entende o projecto da Fraternidade, mas discorda da decisão a favor do boicote.

 

"Não é hora de boicotar eleições", diz ele. "Acho que a oposição realmente desperdiçou uma oportunidade".

 

Hamid, que escreveu recentemente sobre eleições livres, mas "sem qualquer significado" no mundo árabe, vê pouco avanço real para os grupos de oposição, quando os regimes constroem meios baseados em tecnicidades para desqualificar candidatos; e mantêm duas câmaras parlamentares, com as câmaras altas tendo poder de veto sobre decisões das câmaras baixas.

 

Nas eleições de junho, para a câmara alta no Egipto – e que não foram ainda satisfatoriamente analisadas –, com o Conselho Shura da Fraternidade acusado de comprar votos, de impedir a acção da polícia e de promover violentas agitações de rua, a Fraternidade Muçulmana não elegeu nenhum representante; o Partido Nacional Democrático, de Mubarak, conquistou 80, das 88 cadeiras.

 

Regimes como o egípcio investem tudo na fachada de liberdade democrática para acalmar os aliados e financiadores ocidentais, diz Hamid. Boicote massivo, do qual participassem todas as oposições, atingiria a credibilidade dessa fachada democrática que protege ditaduras. Mas a Fraternidade continua a pregar paciência, relembrando décadas de serviços prestados ao povo, e vendo a história de seu específico ponto de vista.

 

"O problema é que o que faz sentido para a Fraternidade Muçulmana, pode não fazer sentido para o futuro da democracia no Egipto" – diz Hamid.

 

Construir para o longo prazo

 

Se as atitudes da Fraternidade Muçulmana parecem questionáveis para os progressistas egípcios, vale a pena lembrar que o grupo não é de facto um partido político  e tem longas raízes históricas como movimento social e religioso, ao qual muitos se unem com o único objectivo de se tornarem melhores muçulmanos.

 

O próprio Hamid reconhece que, com pelo menos 300 mil membros activos e dedicados, "massiva burocracia" e estatutos ainda mais conservadores que as lideranças, ninguém deve esperar que a Fraternidade faça ajustes políticos rápidos.

 

"Temos solidariedades, não individualidades" – como disse Arian.

 

Seja como for, pode haver problemas sérios se as divisões internas se aprofundarem, diz Andrew Albertson, director-executivo do Project on Middle East Democracy.

 

"São poucos os líderes de alto nível que todos respeitam", diz ele. "Se não há alguém que todos considerem, torna-se difícil dissipar a tensão interna, em movimentos como a Fraternidade Muçulmana."

 

Seja como for, há, a favor da Fraternidade, a estrutura interna e o sistema eleitoral que selecciona as lideranças. De facto, a Fraternidade Muçulmana é regida por sistema muito mais democrático que o Estado egípcio.

 

Como Hamid o descreve, cada membro tem raízes numa osra [família]. Esses membros, em grupos de 10 ou 20 pessoas, reúnem-se semanalmente e têm aulas de formação pelo currículo educacional islâmico. 50 famílias formam uma sha'aba [ramo]; 10 ramos constituem um distrito. Vários distritos constituem governorados [províncias], que não correspondem necessariamente à divisão das 29 províncias do Estado egípcio oficial.

 

Desde 2004, a Fraternidade Muçulmana faz eleições regulares em todos os níveis de organização – diz Hamid.

 

O Parlamento da Fraternidade também é eleito, apesar de ter havido denúncias de fraudes nessas eleições, com visitas domésticas entre famílias, para pressionar os eleitores a votar num ou noutro candidato. A situação de repressão política em que vive o Egipto, com acção violenta da polícia política, também dificulta a realização dessas eleições da Fraternidade. Houve denúncias de dificuldades desse tipo nas últimas eleições para o Comando de Orientação da Fraternidade. 

 

A organização da Fraternidade tem garantido sua sobrevivência, até o crescimento, em ambiente político que, para dizer o mínimo, não é favorável à sobrevivência de qualquer tipo de oposição. Em 2005, diz Arian, dois milhões de egípcios votaram em candidatos da Fraternidade Muçulmana.

 

 

Apesar de, praticamente com certeza, os candidatos da Fraternidade virem a ser menos bem-sucedidos do que antes de a organização aparecer publicamente, com candidatos próprios, e de que a organização depois das eleições terá fatalmente de enfrentar um debate interno sobre a sua ideologia, a participação e a representação que eleger garantirão voz e legitimidade política ao grupo. Dentro do processo político, a Fraternidade garantirá para si, no mínimo, o direito retórico de criticar os procedimentos eleitorais.

 

"A menos que alguém participe, o grupo ficará sem qualquer base para criticar os vícios do sistema", diz Albertson.

 

Diferente da Fraternidade egípcia, o partido político da Fraternidade na Jordânia – Frente de Acção Islâmica [ing. Islamic Action Front (IAF)] – escolheu boicotar as eleições parlamentares desse ano. Declararam (como Hamid escreveu), que a eleição para a câmara baixa, embora com vários partidos e considerada "transparente", não tem qualquer sentido democrático efectivo e será necessariamente viciada na origem. Hamid apoiou o boicote, mas Albertson disse que a Frente de Acção Islâmica da Jordânia certamente lamentará não ter representantes no Parlamento. A opinião que os jordanianos têm sobre a legitimidade do governo não será afectada, com boicote ou sem – diz Albertson.

 

"Esquerda islâmica liberal", em tempos de islamofobia

 

Ao insistir em garantir o seu lugar no Parlamento, a Fraternidade egípcia sabe também que os eleitos gozarão de imunidades parlamentares e poderão participar das reuniões oficiais entre o governo e representantes dos EUA, mesmo que a pauta dessas reuniões não inclua questões referentes especificamente à Fraternidade.

 

Não são raras as reuniões extra-oficiais entre o pessoal da embaixada dos EUA e membros da Fraternidade, e não há regras que proíbam diplomatas norte-americanos de manter contacto com a Fraternidade, diz Hamid. Mas sejam quais forem as discussões que se travem entre EUA e a Fraternidade, nenhuma delas levou a qualquer manifestação favorável vinda do governo Obama.

 

No "Discurso do Cairo", em 2009, Obama prometeu apoiar a democracia e o império da lei, apresentados como "direitos humanos". Mas tem feito pouco nessa direcção, no que tenha a ver com o Egipto. O governo Bush, que depois voltou atrás em alguns vigorosos programas de democratização, quando o Hamas foi eleito na Palestina, foi mais activo nas eleições egípcias de 2005. Para muitos, a abertura inicial do governo dos EUA muito contribuiu para que a Fraternidade elegesse tantos deputados no primeiro turno das eleições.

 

A Fraternidade sempre manifesta alguma insegurança sobre o modo como é vista no Ocidente, sempre temerosa de que, em tempos de islamofobia pós 11/9, seja confundida com a al-Qaeda.

 

"Não queremos ser outro Irão", insistiu Ayyash, acrescentando que não têm dúvidas de que os islâmicos apoiariam os interesses de segurança nacional dos EUA. "Os islâmicos em geral trabalham hoje para se aproximarem dos valores da esquerda liberal, de igualdade para todos e respeito aos direitos dos cidadãos e para implementá-los, mas a partir dos fundamentos do Islão."

 

O papel das mulheres e de outras religiões, sobretudo, no Egipto, dos cristãos coptas, também está em pauta. A questão de uma mulher cristã copta, por exemplo, ser votada para ocupar posições de poder é objecto de acalorada discussão na Fraternidade, disse Dunne. Além de temas como a homossexualidade, a liberdade sexual e o consumo de drogas e álcool. Mas já predomina na Fraternidade o consenso segundo o qual cabe à sociedade egípcia decidir sobre práticas da vida; são questões nas quais a religião pode oferecer orientação, não impor decisões, dizem Dunne e vários outros entrevistados.

 

"Creio que os islâmicos moderados admitirão plenos direitos de organização para todos os partidos, mesmo aqueles aos quais se oponham por ideologia", diz Ayyash. "Se a sociedade aceitar a homossexualidade, por exemplo, acho que, se eu estiver no poder, deixarei o poder e irei para a oposição, tentar convencer as pessoas de que não estão a pensar certo”. “Mas”, acrescentou, "acho que os egípcios hoje não aceitariam a homossexualidade, porque é contra o Corão."

 

O prestígio de Obama está em baixa

 

Apesar do discurso pró democracia, a Fraternidade continua no campo oposto, sem qualquer apoio ou protecção dos EUA.

 

Essa semana, o Departamento de Estado divulgou declaração sobre as próximas eleições parlamentares no Egipto, repetindo os mesmos motes retóricos de sempre sobre eleições "transparentes". Mas, na opinião de Dunne, "o pouco que os funcionários do governo Obama têm feito para promover a democracia no Egipto até agora não deu qualquer resultado importante."

 

Seja como for, a cautela do governo Obama já é um avanço comparativo, diz Brian Katulis, especialista em Oriente Médio e pesquisador sénior do Center for American Progress.

 

"Parece-me que o governo Bush fez menos do que poderia ter feito para avançar uma agenda democrática. Não me parece que tenha conseguido qualquer resultado e, de facto, propiciou o tipo de resposta que levou a uma intensificação das disputas."

 

O modelo Bush resolveu mandar a secretária de Estado Condoleezza Rice "pôr a boca no trombone", diz Katulis. (Em 2005, Rice discursou na Universidade Norte-americana no Cairo; nesse discurso, disse que  "por 60 anos [os EUA] procurámos a estabilidade à custa da democracia no Oriente Médio, e nada conseguimos".)

 

"O governo Obama, agora, tenta um projecto mais efectivo; procura determinar que medidas abrirão espaço para os novos reformadores que queiram trabalhar pragmaticamente na direcção das mudanças" – disse Katulis.

 

Segundo Katulis, isso agora implica não ter candidatos favoritos e apoiar o que ofereça melhor projecto, seja El-Baradei ou a Fraternidade Muçulmana.

 

 

"Não perdemos de vista as figuras como Nelson Mandela", diz ele. "Muito mais importante que eleger líderes individuais, é construir um sistema que se mantenha e perdure."

 

Para muitos, os egípcios estão desestimulados e desencorajados de qualquer participação no processo político nacional. Segundo os números oficiais, e por menos que sejam confiáveis, apenas 9% da população total votou nas eleições presidenciais de 2005. Há quase total unanimidade entre os especialistas: não acontecerá qualquer avanço democrático no Egipto, sem a Fraternidade Muçulmana.

 

“Durante o governo Bush predominou a opinião de neoconservadores, para os quais seria possível haver democracia sem os islâmicos”, disse Katulis. “São pessoas que não sabem absolutamente nada de lugares como o Egipto.”

 

Negar o papel decisivo que a Fraternidade Muçulmana tem no poder, como Mubarak parece decidido a continuar a fazer, exige que a sociedade egípcia seja mantida calada, sem voz.

 

Para Albertson, "é difícil imaginar qualquer processo de democratização do Egipto que não envolva a classe média religiosa, tão expressivamente representada pela Fraternidade Muçulmana".

 

Obama deveria aproximar-se directamente da Fraternidade, disse Hamid. Para ele, Gamal Mubarak será ainda mais hostil aos Irmãos, do que Hosni, o pai.

 

"Infelizmente, nem a esquerda liberal nem a extrema-esquerda seculares são capazes de promover grandes manifestações de rua no mundo árabe", diz Hamid. Os islâmicos têm a grande vantagem de contar com redes e locais para divulgação de suas ideias – a mesquita – e historicamente, nessa região, o discurso político sempre se divulgou associado ao Islão, porque "é a linguagem que o povo entende e com a qual o povo conta."

 

Ou, nas palavras de Ayyash: "Os árabes são emotivos e muito religiosos. Sempre fomos mais afectados por vozes islâmicas moderadas do que pelo que dizem os governos."

 

21/11/2010, Evan Hill, Al Jazeera, Qatar, "In Depth"

 

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

 

[i] “A Fraternidade” é o movimento islâmico transnacional e a maior oposição política organizada em vários países árabes. Fundado em 1928 no Egipto, é o maior e mais antigo grupo político islâmico.